“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” (Alberto Caeiro)




31.1.11

SOBRE AQUILO QUE ESCOLHEMOS

Porque você foi presença em minha solidão.
Porque você foi quem me fez escrever.
Porque sempre te vi como a um espelho.
Porque tantos escritos houve, sem que nos responsabilizássemos por eles.

STOP talvez seja uma boa solução para esta canção em looping:
Eu digo que te amo.
Você responde não acreditar no amor.

Insisto no Amor. 
Você, na fuga.
Nunca te quis em uma gaiola.

Toda vez que te vejo.
               que nos abraçamos.
               que seguro as tuas mãos.
E mesmo todas as vezes que te mando à merda.
Tudo parece tão simples.

As palavras quando escritas, porém,
apagam o que eu pensava saber sobre você.
Criam incertezas e distâncias.
Há tanto. Tantas outras além.

Gosto do simples, você sabe.
Beijo de boa-noite.
Café-da-manhã na padaria
(você leria o jornal)

Acreditei (sozinha?)
em nosso impossível e inexplicável.
E desejei - como em uma prece - que pudesse ver por um instante através de meus olhos e meu coração.
Então nunca mais teria de te explicar como me sinto.

Gostaria que alguma vez você tivesse decidido ficar.

Claro está.
Vivemos em mundos diferentes.
No meu, milagres acontecem e 
morrer é condição essencial para ressuscitar.

15.11.10

SOBRE AS CICATRIZES

Fui uma criança muito agitada.
Por não ter tido paciência para engatinhar,
logo me levantei e aprendi a correr.
As marcas dessa ansiedade foram sentidas pelo corpo – galos permanentes na testa – dos lados direito e esquerdo – e muitos, muitos band-aids.
Joelhos e cotovelos que se revezavam, feito semáforo, vermelho-mercúrio.

Tudo isso conta minha mãe.
Eu, na verdade, tenho uma memória lacunar da infância – desconfio de que a pressa não dava tempo suficiente às imagens para que decantassem.
Hoje me restam as cicatrizes – riscos esbranquiçados e levemente salientes na pele – pistas da minha história.

...

Há um ano, fui vítima de um assalto.
Voltava para casa trazendo os livros novos que comprara em uma feira quando um motoqueiro tentou levar minha bolsa.
A alça – pesada de tanto conhecimento – enroscou-se em meu braço, o tranco da puxada me derrubou e fui arrastada por alguns metros pela moto.
Pernas, pés e costas esfoliados.
Cotovelo direito sangrando muito.

É interessante que uma ferida nos faça negligenciar as demais partes do corpo. Por algumas semanas, tive os movimentos limitados e tornei-me um cotovelo.

Ainda mais interessante é notar que uma ferida sempre atrai novas pancadas. O ferimento volta a ficar exposto, sofremos novos sangramentos e mais dor.

A marca deixada ainda não está totalmente cicatrizada.
Somente os machucados de infância desaparecem rapidamente.

...

Há pouco mais de dois anos sofri um ferimento de alma.
Dessas feridas sérias de adulto que não cicatrizam em algumas semanas. Tornei-me então, um coração machucado.
Como dita a regra, negligenciando as demais partes do todo.

Feridas sempre atraem novas pancadas – fotos, telefonemas e novas mentiras – destaparam por vezes o ferimento que voltava a sangrar e doer.

Mulheres grávidas, crianças que caminham de mãos dadas com seus pais, lojas de artigo infantil - olhos embaçados - uma mistura de lágrimas, sangue e paradas respiratórias.

Examinando esta semana meu estado de alma – após uma nova escoriação – pude perceber que a ferida ainda dói, mas cada vez mais se parece com uma cicatriz.

...

Cicatrizes não sangram e não doem.
São um memorial tatuado em nossas peles que ajudam a contar histórias.
Quem fomos e como chegamos a quem somos.
Símbolos - como cruzes que deixamos na estrada.

14.10.10

PARÁFRASE E POLISSEMIA

"A incompletude é a condição da linguagem: nem os sujeitos nem os sentidos - logo, nem o discurso - já estão prontos e acabados. Eles estão sempre se fazendo, havendo um trabalho contínuo, um movimento constante do simbólico e da história.
É a condição de existência dos sujeitos e dos sentidos: constituirem-se na relação tensa entre paráfrase e polissemia" (Eni Orlandi)

5.10.10

GAGGING ORDER





Outro.
Presente do Marcitos.
De ainda há mais tempo...

21.9.10

ENQUANTO VOCÊS DORMEM



E parece que foi ontem...

7.9.10

SOBRE AS ÁGUAS


Você sabe, eu quero fazer mais que apenas viver:
Eu quero andar sobre as águas sem medo de me afogar.

17.5.10

sobre DEUS
(contou-me uma querida)

Estava ajudando a Rachelzinha (4 anos) a se vestir um dia desses, quando ela se virou e me disse:

- Sozinha, mãe, sozinha... eu já sou grande.

Decidi, então, deixá-la se vestir sozinha, embora percebesse claramente que aquilo não ia dar certo.
A Rachel estava vestindo uma dessas blusas de manga comprida, de algodão, que - para piorar - estava do avesso.

Como esperado, ela enrolou a blusa, colocando-a meio do lado certo, meio do avesso e tentou encaixar a cabeça no lugar de um dos braços.
Toda enroscada e mal conseguindo se mexer - porém antes de se sufocar – voltou-se para mim e disse:

- Ajuda, mãe, ajuda...

Não lhe disse um mal-humorado: “agora se vira sozinha”.

Como mãe paciente, ajudei-a a se vestir.


A parte mais dolorida, no entanto, é percebermos que quando estamos completamente enroscados em uma blusa, não há meios de concertar aquilo.
É necessário tirar a blusa e começar tudo do zero.
Virando-a do lado certo e colocando cada membro em seu lugar.

6.4.10

A CHUVA



E aconteceu.
Como há muito eu esperava: Choveu.

Chuva para lavar, limpar e purificar.
Chuva de despertar e renascer.
Chuva temporã, em Seu tempo.

12.3.10

CASA

Há um prédio baixo, 3 andares, desses sem portaria ou elevador, próximo ao meu. É um prédio de pastilhas verdes e fachada já bastante desgastada.
Passo em frente a ele todos os dias em minha caminhada matinal rumo a faculdade e todos os dias leio a pixação acima do portão da garagem:

"eu só queria voltar para casa!
23/11/2003"

Já imaginei um sem número de histórias que terminam com essa frase.

Nos meus dias mais otimistas, imagino um casal que tenha se separado... Imagino que ele (a letra parece-me masculina), entre outros pedidos de reconciliação, tenha feito a pixação.
Imagino que a reconciliação tenha sido bem sucedida e que os dois vivem hoje - felizes - no prédio e que juntos dividem aquela garagem.

A mensagem não foi apagada para que não se esqueçam e nunca voltem a se separar.

Em dias menos otimistas, decido triste que eles nunca voltaram a ficar juntos. E que, para evitar o incômodo da memória, ela tenha se mudado dali já há bastante tempo.

Da mensagem na parede, nenhum dos dois se lembra mais.

Sempre que leio a frase, penso que eu também gostaria de voltar para casa...
Há tempos que meu apartamento perdeu esse conforto de lar.
Ando planejando me mudar, mas não tenho certeza que a troca de endereço seja suficiente para me trazer de volta para minha casa.

9.2.10

FEDORA

No livro 'As cidades invisíveis', Italo Calvino diz que na cidade de Fedora há um palácio de metal repleto de esferas de vidro. Dentro de cada esfera, há um modelo-projeto para uma nova-outra cidade.

"Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas, enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro".

Lendo o texto, verifiquei que os muitos mini-projetos que tracei para minha vida ideal, encontram-se hoje em esferas de vidro inúteis, impossíveis e atrasadas, tais como as de Fedora.
Como uma criança teimosa em rixa com seu brinquedo educativo, insisto em querer encaixar o círculo em um quadrado.

Quanto tempo será necessário para perceber o impossível?