“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” (Alberto Caeiro)




17.5.10

sobre DEUS
(contou-me uma querida)

Estava ajudando a Rachelzinha (4 anos) a se vestir um dia desses, quando ela se virou e me disse:

- Sozinha, mãe, sozinha... eu já sou grande.

Decidi, então, deixá-la se vestir sozinha, embora percebesse claramente que aquilo não ia dar certo.
A Rachel estava vestindo uma dessas blusas de manga comprida, de algodão, que - para piorar - estava do avesso.

Como esperado, ela enrolou a blusa, colocando-a meio do lado certo, meio do avesso e tentou encaixar a cabeça no lugar de um dos braços.
Toda enroscada e mal conseguindo se mexer - porém antes de se sufocar – voltou-se para mim e disse:

- Ajuda, mãe, ajuda...

Não lhe disse um mal-humorado: “agora se vira sozinha”.

Como mãe paciente, ajudei-a a se vestir.


A parte mais dolorida, no entanto, é percebermos que quando estamos completamente enroscados em uma blusa, não há meios de concertar aquilo.
É necessário tirar a blusa e começar tudo do zero.
Virando-a do lado certo e colocando cada membro em seu lugar.

6.4.10

A CHUVA



E aconteceu.
Como há muito eu esperava: Choveu.

Chuva para lavar, limpar e purificar.
Chuva de despertar e renascer.
Chuva temporã, em Seu tempo.

12.3.10

CASA

Há um prédio baixo, 3 andares, desses sem portaria ou elevador, próximo ao meu. É um prédio de pastilhas verdes e fachada já bastante desgastada.
Passo em frente a ele todos os dias em minha caminhada matinal rumo a faculdade e todos os dias leio a pixação acima do portão da garagem:

"eu só queria voltar para casa!
23/11/2003"

Já imaginei um sem número de histórias que terminam com essa frase.

Nos meus dias mais otimistas, imagino um casal que tenha se separado... Imagino que ele (a letra parece-me masculina), entre outros pedidos de reconciliação, tenha feito a pixação.
Imagino que a reconciliação tenha sido bem sucedida e que os dois vivem hoje - felizes - no prédio e que juntos dividem aquela garagem.

A mensagem não foi apagada para que não se esqueçam e nunca voltem a se separar.

Em dias menos otimistas, decido triste que eles nunca voltaram a ficar juntos. E que, para evitar o incômodo da memória, ela tenha se mudado dali já há bastante tempo.

Da mensagem na parede, nenhum dos dois se lembra mais.

Sempre que leio a frase, penso que eu também gostaria de voltar para casa...
Há tempos que meu apartamento perdeu esse conforto de lar.
Ando planejando me mudar, mas não tenho certeza que a troca de endereço seja suficiente para me trazer de volta para minha casa.

9.2.10

FEDORA

No livro 'As cidades invisíveis', Italo Calvino diz que na cidade de Fedora há um palácio de metal repleto de esferas de vidro. Dentro de cada esfera, há um modelo-projeto para uma nova-outra cidade.

"Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas, enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro".

Lendo o texto, verifiquei que os muitos mini-projetos que tracei para minha vida ideal, encontram-se hoje em esferas de vidro inúteis, impossíveis e atrasadas, tais como as de Fedora.
Como uma criança teimosa em rixa com seu brinquedo educativo, insisto em querer encaixar o círculo em um quadrado.

Quanto tempo será necessário para perceber o impossível?

19.1.10

ERA UMA VEZ...
uma menina que não queria mais dormir.

Não sofria de insônia e permanecer acordada era a duras penas.
Não dormia porque tinha medo de acordar.
Não dormia porque tinha medo de o tempo se apressar enquanto ela se distraia...

Não dormia porque tinha medo de sonhar.

Sonhar, somente acordada.
Sonhos planejados e altamente controlados.

Até que um dia...
Desistiu dos sonhos errados que sonhou para si.
Arrumou-se o mais rápido que pôde para em um sono profundo - como quem vai ao cinema - assistir aos sonhos que desenharam para ela: sonhos bons, perfeitos e agradáveis.

16.1.10

RECOMEÇAR

O relacionamento entre duas pessoas pode ser comparado a duas folhas de papel de cores diferentes que, se coladas uma a outra, mesmo que breve o instante em que permaneçam unidas, quando separadas, não mais voltam ao que antes eram.
Haverá marcas e sobras de uma cor na outra.
Imagino-me uma folha de papel branco cheia de desgastes e resíduos (perdas e aquisições).
As cores não são tantas, porém muitas mais do que eu hoje escolheria para mim.

Aprendi com cada um de vocês:
- aprendi que primeiro devo ser uma boa compania para mim mesma
- aprendi silêncio
- aprendi paciência
- aprendi que tenho muito ainda por aprender
- e quase aprendi a não mais me importar...

Somente com Ele aprendi a enxergar de novo...
...e pela primeira vez.

Sinto precisar de um banho desses longos que levem os resíduos indesejáveis mas também os necessários...

... será que hoje vai chover?

5.4.09

TEMPO PARA TUDO

"Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo propósito debaixo do céu:

há tempo de nascer e tempo de morrer;
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de derribar e tempo de edificar;
tempo de chorar e tempo de saltar de alegria;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras;
tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
tempo de buscar e tempo de perder;
tempo de guardar e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar e tempo de coser;
tempo de estar calado e tempo de falar;
tempo de amar e tempo de aborrecer;
tempo de guerra e tempo de paz"

(Ec 3:1-8)

16.3.09

TODO O SENTIMENTO

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

(Chico Buarque)

3.3.09

SOBRE O CORAÇÃO

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida"
(Provérbios 4:23)

5.2.09

SOBRE O AMOR

"Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como bronze que soa ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entres os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.
O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba".

(1 Coríntios 13.1-8)