9.12.08
Hoje ao sair do trabalho, tristeza e falta de vontade de ir para casa, me desviaram de meu caminho.
Me permiti ouvir música alta enquanto guiava - pela primeira vez - embora minhas habilidades no volante ainda não estejam 100%.
Segui o fluxo de carros que me levou a uma agradável surpresa - a árvore de Natal iluminada em frente ao Parque Ibirapuera:
Bolas, fitas, laços e muitas, muitas luzes!
Contemplando tantas cores, descobri que gosto muito de decoração natalina.
Ver as crianças correndo em volta da árvore, me trouxe de volta os Natais da minha infância e os sonhos que pedi de presente ao Papai Noel.
(por falar nisso, bom velhinho, gostaria de lembrá-lo que você ainda está em falta comigo! alguns presentes ainda não chegaram e, olha, que eu já deixei de ser criança há um bom tempo!)
Meia hora depois, entrei na garagem do meu prédio.
Ainda sem coragem para deixar o carro, fiquei tempo suficiente para que as luzes se apagassem. Uma, duas músicas...
O rádio brilhava - amarelo, branco, verde, vermelho, azul...
E assim descobri que já tenho minhas próprias luzes natalinas!
30.10.08
MAKING A WISH
"A verdade só faz as coisas tais como são, e a verossimilhança as faz como devem ser" (Rapin)
Se pudesse escolher uma cena de filme para a minha vida nessa semana, escolheria uma bem clichê: acordar e descobrir que tudo não passou de um sonho – e mais que isso, que nos foi dada uma segunda chance e podemos voltar atrás para fazer novas escolhas!
Ou seja, não somos nunca capazes de abranger a personalidade do outro – descontinuidade – com a mesma precisão com a qual somos capazes de apreender sua configuração externa – continuidade.
Nós seres somos misteriosos e inesperados, não respondemos a lógica e verossimilhança. Há sempre algo de insólito nas pessoas, algo que nos surpreende e, algumas vezes, aterroriza.
Não compreendemos nossa própria lógica e não sabemos como agiremos em cada uma das situações.
A vida é, sim, cheia de surpresas e incoerências, de verdades dolorosas, mas, algumas vezes, libertadoras.
VEROSSIMILHANÇA E NECESSIDADE
ou
“verossimilhança e conveniência confundem-se sob um mesmo critério, isto é, ‘tudo está de acordo com a opinião do público’. Esta opinião, real ou suposta, é bem precisamente o que se denominaria hoje uma ideologia, isto é, um corpo de máximas e de preconceitos”. (Genette)
As personagens devem manter uma lógica para que acreditemos em sua veracidade e para que nos envolvamos com sua vida e seus problemas.
Uma incoerência de personalidade pode nos afastar automaticamente da ficção e pode nos fazer questiona-la.
A avaliação de coerência está baseada tanto na lógica interna da personagem quanto em um consenso social – o socialmente possível e aceito.
A questão é: por que somos tão exigentes com a ficção se a vida “real” não segue a nenhuma lei de verossimilhança?
30.9.08
La tierra giró para acercarnos,
giró sobre sí misma y en nosotros,
hasta juntarnos por fin en este sueño,
como fue escrito en el Simposio.
Pasaron noches, nieves y solsticios;
pasó el tiempo en minutos y milenios.
Una carreta que iba para Nínive
llegó a Nebraska.
Un gallo cantó lejos del mundo,
en la previda a menos mil de nuestros padres.
La tierra giró musicalmente
llevándonos a bordo;
no cesó de girar un solo instante,
como si tanto amor, tanto milagro
sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito
entre las partituras del Simposio.
7.9.08
"...Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais".
(Eduardo Galeano)
30.7.08
Caminho à beira do mar, no exato lugar em que a onda choca-se com a areia, molho meus pés e sigo a linha de espuma deixada entre seu ir e vir como quem caminha sobre um arame de circo. Equilibro-me entre o que penso e o que sinto/sei (mas desconfio).
Os anos ensinaram-me a ler as pessoas, ler suas intenções com o coração, mas a desafiá-las com a mente. Testar limites e comprovar certezas.
Descanso meus olhos mirando-o.
Sonho acordada, vejo meus sonhos e medos desenhados, projetados em suas ondas.
Pregou-me uma peça ou duas.
Comunicação não-verbal.
Toma-me um bem e traz-me outro.
- Paciência e espera, me diz.
- Como? Ensina-me.
Perdida entre lembranças e tantos "eus".
Minha vida passa como um filme dentro de mim.
Em looping.
O filme acaba. Começa de novo.
Procuro o exato momento em que perguntas "tão simples" passaram a tão difíceis de responder:
- Ah, eu gosto mesmo é de...
- Eu trabalho com isso porque acredito que...
- O meu sonho mesmo é...
- Eu gostaria mesmo é de...
- O que eu estou querendo dizer é que estar vivo... bem, o bom da vida... a gente vive para...
30.5.08
31.10.07
De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
— vazio — de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Carlos Drummond de Andrade

