“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” (Alberto Caeiro)




5.2.09

SOBRE O AMOR

"Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como bronze que soa ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entres os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.
O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba".

(1 Coríntios 13.1-8)

28.1.09

SOBRE O SOFRIMENTO

"Imagine um urso preso em uma armadilha e um caçador que quer libertá-lo.
O caçador tenta conquistar a simpatia do urso, mas sem conseguir, tem de dar-lhe um tiro de tranqüilizante.
O urso pensa que é um ataque e que o caçador está tentando matá-lo.
Não compreende que isso está sendo feito por compaixão.
Para tirar o urso da armadilha, o caçador tem de empurrá-lo ainda mais para dentro dela, a fim de liberar a pressão da mola.
Se o urso estivesse consciente nesse momento, ficaria ainda mais convencido que o caçador era seu inimigo e que estava querendo causar-lhe sofrimento e dor.
Porém o urso estaria errado.
Chega a essa conclusão incorreta porque não é um ser humano.

- Você concordaria que a diferença entre nós e Deus é maior que a diferença entre nós e um urso?"

(Peter Kreeft)

9.12.08

LUZES DE NATAL

Hoje ao sair do trabalho, tristeza e falta de vontade de ir para casa, me desviaram de meu caminho.
Me permiti ouvir música alta enquanto guiava - pela primeira vez - embora minhas habilidades no volante ainda não estejam 100%.
Segui o fluxo de carros que me levou a uma agradável surpresa - a árvore de Natal iluminada em frente ao Parque Ibirapuera:

Bolas, fitas, laços e muitas, muitas luzes!

Contemplando tantas cores, descobri que gosto muito de decoração natalina.
Ver as crianças correndo em volta da árvore, me trouxe de volta os Natais da minha infância e os sonhos que pedi de presente ao Papai Noel.

(por falar nisso, bom velhinho, gostaria de lembrá-lo que você ainda está em falta comigo! alguns presentes ainda não chegaram e, olha, que eu já deixei de ser criança há um bom tempo!)

Meia hora depois, entrei na garagem do meu prédio.
Ainda sem coragem para deixar o carro, fiquei tempo suficiente para que as luzes se apagassem. Uma, duas músicas...

O rádio brilhava - amarelo, branco, verde, vermelho, azul...
E assim descobri que já tenho minhas próprias luzes natalinas!

30.10.08

MAKING A WISH

"A verdade só faz as coisas tais como são, e a verossimilhança as faz como devem ser" (Rapin)

Se pudesse escolher uma cena de filme para a minha vida nessa semana, escolheria uma bem clichê: acordar e descobrir que tudo não passou de um sonho – e mais que isso, que nos foi dada uma segunda chance e podemos voltar atrás para fazer novas escolhas!

CONTINUIDADE E DESCONTINUIDADE

“Quando abordamos o conhecimento direto das pessoas, um dos dados fundamentais do problema é o contraste entre a continuidade relativa da percepção física (em que fundamos nosso conhecimento) e a descontinuidade da percepção, digamos, espiritual”. (Antônio Cândido)


Ou seja, não somos nunca capazes de abranger a personalidade do outro – descontinuidade – com a mesma precisão com a qual somos capazes de apreender sua configuração externa – continuidade.
Nós seres somos misteriosos e inesperados, não respondemos a lógica e verossimilhança. Há sempre algo de insólito nas pessoas, algo que nos surpreende e, algumas vezes, aterroriza.
Não compreendemos nossa própria lógica e não sabemos como agiremos em cada uma das situações.
A vida é, sim, cheia de surpresas e incoerências, de verdades dolorosas, mas, algumas vezes, libertadoras.

VEROSSIMILHANÇA E NECESSIDADE

“Tanto na representação de caracteres como no entrecho das ações, importa procurar sempre a verossimilhança e a necessidade; por isso, as palavras e os atos de uma personagem devem justificar-se”. (Aristóteles – A Poética)

ou

“verossimilhança e conveniência confundem-se sob um mesmo critério, isto é, ‘tudo está de acordo com a opinião do público’. Esta opinião, real ou suposta, é bem precisamente o que se denominaria hoje uma ideologia, isto é, um corpo de máximas e de preconceitos”. (Genette)

O fato é que as personagens de ficção, por mais esféricas e complexas psicologicamente que se apresentem, vão sempre estar condicionadas a essas duas máximas – verossimilhança e necessidade.
As personagens devem manter uma lógica para que acreditemos em sua veracidade e para que nos envolvamos com sua vida e seus problemas.
Uma incoerência de personalidade pode nos afastar automaticamente da ficção e pode nos fazer questiona-la.
A avaliação de coerência está baseada tanto na lógica interna da personagem quanto em um consenso social – o socialmente possível e aceito.
A questão é: por que somos tão exigentes com a ficção se a vida “real” não segue a nenhuma lei de verossimilhança?

30.9.08

LA TIERRA GIRÓ PARA ACERCARNOS

La tierra giró para acercarnos,
giró sobre sí misma y en nosotros,
hasta juntarnos por fin en este sueño,
como fue escrito en el Simposio.
Pasaron noches, nieves y solsticios;
pasó el tiempo en minutos y milenios.



Una carreta que iba para Nínive
llegó a Nebraska.
Un gallo cantó lejos del mundo,
en la previda a menos mil de nuestros padres.
La tierra giró musicalmente
llevándonos a bordo;
no cesó de girar un solo instante,
como si tanto amor, tanto milagro
sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito
entre las partituras del Simposio.

(Eugenio Montejo)

7.9.08

CELEBRAÇÃO DA VOZ HUMANA/2

"...Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais".
(Eduardo Galeano)

30.7.08

DAS ÁGUAS

Caminho à beira do mar, no exato lugar em que a onda choca-se com a areia, molho meus pés e sigo a linha de espuma deixada entre seu ir e vir como quem caminha sobre um arame de circo. Equilibro-me entre o que penso e o que sinto/sei (mas desconfio).
Os anos ensinaram-me a ler as pessoas, ler suas intenções com o coração, mas a desafiá-las com a mente. Testar limites e comprovar certezas.

Descanso meus olhos mirando-o.
Sonho acordada, vejo meus sonhos e medos desenhados, projetados em suas ondas.

Pregou-me uma peça ou duas.
Comunicação não-verbal.

Toma-me um bem e traz-me outro.

- Paciência e espera, me diz.
- Como? Ensina-me.
PERGUNTANDO

Perdida entre lembranças e tantos "eus".
Minha vida passa como um filme dentro de mim.

Em looping.
O filme acaba. Começa de novo.
Procuro o exato momento em que perguntas "tão simples" passaram a tão difíceis de responder:

- Ah, eu gosto mesmo é de...
- Eu trabalho com isso porque acredito que...
- O meu sonho mesmo é...
- Eu gostaria mesmo é de...
- O que eu estou querendo dizer é que estar vivo... bem, o bom da vida... a gente vive para...